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sábado, 20 de janeiro de 2018

O que é o Reino de Deus?

«Pão quente da Palavra» do Domingo III Tempo Comum
O Reino de Deus, na Bíblia, designa um governo ou domínio em que tem Deus por soberano ou governante. É sinónimo de teocracia. Segundo o Gênesis, os primeiros humanos rebelaram-se deliberadamente contra a soberania de Deus. O Reino Milenar de Cristo é subsidiário do Reino de Deus.
Entre os teólogos existe conceitos divergentes quanto ao que é concretamente o Reino de Deus, que podemos sintetizar em três pontos:
1. um governo real estabelecido no Céu;
2. uma condição mental existente nos verdadeiros cristãos;
3. a Igreja Cristã.
Segundo uma outra interpretação teológica, o Reino de Deus é o Projecto Criador de Deus a realizar neste Mundo e que consiste na plena realização da Criação de Deus, finalmente liberta de toda a imperfeição e compenetrada por Ele. É interpretado também como o estado terminal e final da salvação, onde os homens irão transcender-se e viver eternamente com Deus.
Lá, a lei do amor incondicional a Deus e ao próximo é finalmente instaurada definitivamente. Não haverá mais tempo, mais sofrimento, mais conflitos, mais ódio, mais vingança, mais crueldade ou barbárie, e o céu e a terra unem-se finalmente.
 Embora Deus seja Todo-Poderoso, Ele quer que nós, humanos, dotados de inteligência e razão, participemos de um modo recíproco, livre e voluntário no Projecto Criador de Deus, o maior de todos os projectos que o mundo jamais viu, englobando todos os tempos, todos os povos e todos os seres do Universo.
Seguindo este pensamento, esta missão torna-nos verdadeiros parceiros de Deus, com muita liberdade e simultaneamente muita responsabilidade. Isto quer dizer que nós temos o poder e a capacidade de acelerar a vinda do Reino de Deus com a nossa fé em Jesus Cristo e com as nossas boas acções.
Os valores principais do Reino de Deus são a verdade, a justiça, a paz, a fraternidade, o perdão, a liberdade, a alegria e a dignidade da pessoa humana. Fica dito o desafio: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» era o tema da pregação de João, o Baptista (Mt 3, 2). O prometido Messias chegara, isto é, quando Jesus de Nazaré foi baptizado e Ungido (Lc 3, 30-31) essa realidade anunciada por João Baptista confirmou-se plenamente.
Todo o ministério de Cristo girou em torno do Reino de Deus. Ele instruiu os seus Apóstolos dizendo: «Pregai que está próximo o Reino dos Céus». Essas instruções seriam repetidas a todos os seus discípulos, a todos os cristãos de todos os tempos e contextos da vida deste mundo (Mt 10, 7; 24, 14; 28, 19-20; Atos 1, 8).
A Bíblia inteira gira em torno da vinda do Messias e do Reino de Deus. Por conseguinte, o Reino de Deus tinha um sentido profético e missionário na vida da Igreja Cristã dos primeiros tempos, é preciso que hoje se retome com convicção esse sentido para que o Evangelho seja hoje realidade viva no meio do mundo concreto dos homens e mulheres deste tempo que é o nosso.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Matrimónio aéreo mas tão próximo de Deus

O Papa Francisco presidiu a uma união matrimónial dentro do avião. E agora como ficam os matrimónios da carga de papéis e papelinhos que infernizam tanto a vida dos casais e dos padres? - Mais umas manchadas na Igreja burocrática que alimentados por todo o lado. Alguns irão considerar inválido, outros que o Papa está sem juízo, outros ainda que é um sacrilégio e quiçá outros ainda vão encontrar mais um elemento para considerar que este Papa é um herege. Por mim, considero três coisas, uma, já afirmei, cortou cerce mais uma vez contra a burocracia na Igreja Católica, outro provoca os zelosos burocratas que exigem papéis e papelinhos para tudo e nada para mostrarem poder e, por fim, a melhor de todas, deu legitimidade à ousadia de alguns (ainda poucos) que vão por aqui e por ali ensaiando facilitar a vida das pessoas. Um vibrante bem haja e um comovido obrigado ao Papa Francisco por esta abençoado dádiva que confirma o amor de um casal em qualquer lugar e circunstância.

As imagens que valem mais do que uma biblioteca

Passo leve, mas seguro, desceu do papamovel, o Papa Francisco, para ir ao encontro da jovem que caiu do cavalo, quando fazia guarda à passagem do Papa. Eis aí o testemunho da Igreja próxima, "em saída", "hospital de campanha"... Valem as imagens por dezenas ou milhares de textos, incluindo os papais...

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Pesar e vergonha

O discurso do Papa Francisco ao chegar ao Chile, no Palácio de La Moneda perante as autoridades, a sociedade civil e o corpo diplomático, vincou bem a sua posição quanto aos abusos contra crianças, que têm motivado alguns protestos e ataques contra igrejas ou dependências da Igreja Católica do Chile e até mesmo contra a pessoa do Papa Francisco.

Está bem assinalada a expressão, "pesar e vergonha", com o respetivo pedido de perdão. Ao mencionar numa parte do discurso sobre as crianças, o Papa expressou o seu pesar e vergonha diante dos casos em que elas foram lesadas por ministros da Igreja: "Não posso deixar de exprimir o pesar e a vergonha que sinto perante o dano irreparável causado às crianças por ministros da Igreja. Desejo unir-me aos meus irmãos no episcopado, porque é justo pedir perdão e apoiar, com todas as forças, as vítimas, ao mesmo tempo que nos devemos empenhar para que isso não volte a repetir-se". A determinação do Papa é evidente e o apelo para que toda a Igreja e a sociedade não se descuidem e façam tudo para que os abusos não se repitam e deixem de existir.

Este tema tem sempre uma cruel actualidade. Os abusos contra crianças, venham de onde vieram, são um crime e devem ser punidos com todo o rigor da lei e da justiça. O Papa Francisco, quando se trata de abusadores membros do clero, sempre tem manifestado o seu pesar e vergonha com o consequente pedido de perdão às vítimas e as suas famílias, sem esquecer que devem existir as devidas investigações e o julgamento nos tribunais. Mais ainda se deve salientar que as medidas e as suas determinações no interior da Igreja têm sido duras para serem aplicadas contra os padres abusadores. Neste domínio a Igreja Católica tem sido exemplar.

Porém, os abusos são transversais à sociedade e tem surgido denúncias dos mais inverosímeis abusadores.  A comunicação social todos os dias nos dá conta de situações de abusos sexuais contra crianças. Eles são os próprios pais, tios, vizinhos, padrastos, professores, padres e tantas situações tão surpreendentes que nos deixam boquiabertos quando os tomamos conta de que os abusadores estão nos mesmos espaços que as crianças abusadas. Uma verdadeira tragédia que não parece ter fim à vista. É por isso, que não teremos a real dimensão desta violência e que deve ser incalculável o sofrimento atroz que passam algumas crianças todos os dias sem que venha a ser travada a sua dor e os abusadores devidamente penalizados. 

É necessária uma luta sem tréguas contra esta desgraça que nos impressiona e revolta cada vez com mais frequência. Algo anda mal se apesar de serem cada vez mais denunciados os abusadores e alguns punidos severamente, mesmo assim, ainda não conseguimos travar os abusos e os abusadores.

Todos sentimos dor e pesar. Mas é necessária uma luta constante contra todo o género de abusos que conduzem ao sofrimento das crianças indefesas. É preciso apostar na educação a todos os níveis, especialmente, numa educação para a sexualidade integrada, com respeito e dignidade. Se a tragédia é transversal à sociedade, a luta pertence à sociedade toda, porque a ninguém devidamente educado e ciente do mal deixa de sentir a dor daqueles que o rodeiam quando são vítimas da loucura perversa de alguns, especialmente, se são as crianças.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Deus e eu

O Ilídio Gonçalves, no seu/nosso "Deus e eu", oferece-nos o seu interessante percurso de vida que o conduz ao "conhecimento" de Deus... Muito bonita esta "viagem" pelo exterior para chegar ao seu interior com toda a força da existência que nos rodeia. Obrigado Ilídio por esta "viagem" tão sincera e sentida. 

Com bastante surpresa, recebi um convite do padre José Luís Rodrigues para uma rubrica do seu 'Banquete da Palavra', 'Deus e eu'. Afinal quem sou eu para merecer tal oportunidade?
Passado esse mesmo momento da surpresa, deixei assentar a poeira e, tal como tinha dito num comentário acerca de um outro testemunho, respirei fundo e convenci-me das minhas próprias palavras: tudo o que vem de dentro é válido.
"Deus e eu"
Ainda há poucos dias, num texto para os meus amigos, acerca do meu Natal, falei um pouco da minha relação com Deus e a época Natalícia. Partilho agora convosco algumas palavras de então e outras acerca deste tema.
A minha relação com Deus, sempre foi tumultuosa. Como num verdadeiro amor. Rendi-me sempre a essa paixão desde que possuo entendimento, através do amor pelas pessoas, fossem elas da minha família, amigos ou simplesmente conhecidos e mais recentemente, não menos, pela Natureza que me envolve. Esperei sempre o melhor de todas elas, sabendo eu próprio, das minhas grandes dificuldades em dar o melhor de mim mesmo, aos outros. A força de Deus foi sempre aquela que nunca me deixou desistir após cada queda, cada desilusão. Ainda nos dias de hoje, é ela que me levanta, mesmo quando penso, demasiadas vezes, que me abandonou.
O meu amor por Deus, começa no seio de uma família humilde, onde se respeitava um Deus que se desconhecia. Sempre me fez confusão, esta condição de ter Alguém, que era o nosso maior Amigo e ao mesmo tempo, um Desconhecido. Como todas as crianças da altura, frequentava o ritual da catequese e nem mesmo a minha querida e paciente catequista, conseguia motivar-me para esse Deus, sempre presente, mas inalcançável. A idade não me permitia questionar quem nos ensinava, essa permissão existia apenas com o meu pai e minha mãe a breves espaços e dentro de determinados parâmetros, em casa. Eram tempos de sobrevivência, não de grandes questionamentos.
Convenci-me então que, esta era uma questão que teria de resolver sozinho. Não desiludiria quem esperava de mim uma conduta cordata, mas disponibilizar-me-ia para conhecer esse Deus, tão respeitado e ao mesmo tempo, tão temido.
Pouco a pouco, enquanto o mundo das palavras se abria para mim, fui conhecendo um Deus de outros. Odiado por uns, ignorado por tantos, respeitado por outros, adorado por muitos, era um Deus que apresentava-se de uma forma difícil de entender. Afinal, se Deus era universal, porquê tantas formas diferentes de olhar para Ele? Depois de muito ler, cheguei à conclusão que o meu Deus não poderia ser aquele. Teria de O procurar, dentro de mim mesmo, a Sua essência.  Lembro que este caminho começou, de uma forma prática, quando, nas idas à igreja para a "confissão obrigatória", desviava-me do propósito, ocupando o mesmo tempo a falar com Deus, no meu entendimento de então, de uma forma "directa", em frente do Sacrário da igreja da paróquia. A minha timidez, arranjou assim uma forma de ser o mais verdadeiro possível com Ele. Não precisaria assim de combinar com os meus irmãos e amigos, no adro da igreja, os pecados que iria revelar ao Padre para obter uma absolvição garantida. Tenho a certeza que o Padre adivinhava esses conluios e disso mesmo deu-me conta uma vez em que não consegui escapar à confissão, levado pela mão de minha mãe até dentro da igreja.  Levei assim à letra a palavra do falecido padre Sumares que, uma vez na homilia dominical, ouvi exortando a que cada um estabelecesse o seu próprio diálogo com Deus.
Desde muito cedo o meu primeiro livro de cabeceira foi a Bíblia. Tinha uma predilecção especial pelo Antigo Testamento e só mais tarde descobri a maravilha da mensagem do Novo Testamento. A minha mãe, que me via agarrado à Bíblia, segundo ela, por demasiado tempo, dizia-me assustada que, ainda ia tornar-me numa 'Testemunha de Jeová', igual àqueles que batiam às portas das casas para, segundo ela, "atormentar as pessoas".
A verdade é que, mesmo sem o seu conhecimento, cheguei a conversar com alguns deles, durante a minha juventude. A dado momento, conhecia a Bíblia, principalmente o Antigo Testamento, melhor do que a maioria das pessoas com quem falava e, apesar de discordar da forma e de alguns propósitos, gostava de falar com eles. Talvez porque a igreja católica da altura não me permitia essas conversas. E voltava sempre meus aos diálogos com Ele, apesar dos tumultos, as conversas eram sempre, na maioria das vezes, apaziguadoras.
Estas são conversas que perduram, de uma forma quase assídua, desde esses tempos. Sempre preferi falar com Ele, desta forma. Se tinha que chorar, rir, agradecer, pedir desculpa, pedir ajuda, era com Ele e na sua Presença que preferia fazê-lo sempre. Nos dias de hoje, a única diferença, é que, adicionei a Natureza ao palco das minhas conversas com Ele, contemplando as paisagens impossíveis a partir de sinuosos caminhos e dos píncaros das montanhas da ilha. Trouxe assim Deus para fora de um Sacrário (que ainda não dispenso) para o ar livre aonde O respiro com todo o meu ser e perante a Sua grandeza.
Embora sempre tivesse sido um atento e defensor convicto da Natureza, da qual fazemos todos parte, foi num período complicado da minha vida que me foi mostrada a via de conhecê-la de uma forma directa e profunda. Tomando contacto com a criação d`Ele e sentindo-a no seu pulsar, tanto na perfeição das grandes coisas, como nas mais pequenas, nas quais quase ninguém repara. Isto principalmente, na terra que me viu nascer e que amo profundamente. Não me dei conta da salvação que representou para mim essa predisposição e descoberta na altura, mas a verdade é que, uma nova força surgiu para que eu enfrentasse o mundo e as dificuldades pelas quais então passava.
Foi um caminho que Ele, uma vez mais, me indicou para apaziguar as minhas dúvidas, ajudando-me na via que precisava seguir, não me desiludindo, uma vez mais.
Há uns tempos atrás perguntaram-me porque gostava de caminhar sozinho pelos trilhos de Natureza. Respondi na altura (e ainda mantenho) que, sozinho, a introspecção era maior, não tendo que dar explicações sobre o quanto me emocionava uma gota de orvalho, uma folha caída, uma cascata murmurante, um silêncio apenas interrompido pelo vento na copa das árvores, um trilho ladeado de flores endémicas, ou simplesmente o inconfundível chilrear de um Bis-Bis fugidio. A observação da Natureza e os seus fenómenos como o nevoeiro, a chuva, o vento, a neve, o sol nascente e poente, bem como determinados lugares e paisagens, completam esta necessidade de estar mais perto d`Ele. Compreendo agora a minha avó que não temia andar sozinha e vivia dizendo que andava com Deus por companhia. Sempre com Ele.
Sempre discordamos muito, eu e Deus, sem atribuição de culpas mútuas. Algumas vezes saí e ainda saio das nossas conversas, revoltado e desapontado. Sempre foi assim. Em pequeno, por exemplo, não entendia porque Ele, que podia tudo, simplesmente não ajudava meu pai a entender determinadas coisas, porque não ajudava a minha mãe a ter mais saúde e porque não tínhamos uma vida mais confortável que permitisse uma estabilidade para os meus pais, para os meus irmãos e para mim. Coisa pouca, talvez, como para tanta gente. Mas a verdade é que, mesmo aí nesses momentos, estabelecíamos "tréguas" durante as quais, nem Ele, nem eu, falhávamos. Nem mesmo naquele Natal em que a mãe regressou dia 23 de Dezembro a casa quando já todos não acreditavam, depois de uma longa permanência no hospital, após uma cirurgia complicada. Lembro que não concebia um Natal sem a mãe entre nós e que, era o único que acreditava que ela voltaria para, uma vez mais, celebrar connosco a Festa mais importante das nossas vidas.
Durante esta já longa travessia, foram-me levados familiares e amigos próximos, alguns de formas trágicas para as quais nunca Lhe atribuí culpa alguma. A culpa está e estará sempre em nós. Saber libertar-se dela é um dever nosso, para o qual Ele estará sempre disponível para ajudar. Basta deixarmos.
Hoje tenho a certeza que, as nossas discordâncias mais profundas tinham e terão, sempre, a ver comigo. Afinal, sempre foi Ele quem me conheceu profundamente, desde o início.
A vida ensinou-me a resiliência que me amansou os espasmos da revolta e entretanto, envelheci, ainda com muitas dessas perguntas que me assolavam nesses tempos que passavam, curiosamente devagar.
Com alguma surpresa, é no tempo em que estamos melhor com a vida que menos falamos e agradecemos a ajuda que Ele nos dá, de uma forma que só nós, quando queremos realmente, conseguimos decifrar. Não fujo à regra Humana e sei que fui injusto com Ele tantas vezes. Resta-me o consolo de Ele conhecer-me tão bem e saber que, apesar dessas falhas, Ele foi e será sempre o meu melhor Amigo, no qual eu apoiar-me-ei de forma convicta através das formas que Lhe conheço. Sei que nunca me faltará.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A ditadura da indiferença

Uma parte do mundo está encurralada pela "ditadura da indiferença", que outra parte do mundo inventou. Má sorte que todo o mundo vê diante de si a desgraça dos que não tiveram sorte, por isso, restou-lhes a marginalidade, a exclusão e, por enquanto, o chão da desgraça e o céu como tecto para quem não tem tecto, são moradores da rua ou "os condenados a dormir na rua". A fatalidade horrível de um crime com vítimas sem que ninguém possa ser acusado de criminoso. 
Este descontentamento tenebrosamente descontente, ditatorialmente implementa às claras a tortura dos tempos modernos, a indiferença.
Se não tivéssemos de chamar exploradores, para não dizer sanguessugas, dos impostos, deviam fazer chegar uma gota que fosse a muitos abrigos que aquecessem todos os corpos famintos de calor e de dignidade. Os famigerados tributados impostos sobre as nossas cabeças, deviam chegar para pagar a conta do abrigo para que ninguém apanhasse frio, mas os irresponsáveis que nos sugam o dinheiro dormem quentes e descansados nas poltronas dos desvios do dinheiro para betonar com cimento armado o nosso pensamento, a inquietude e as dúvidas. 
Resta a ditadura da indiferença de um mundo que continua injusto, cruel e impróprio para dar abrigo aos seres vivos. 
Até quando vamos ser um povo inteiro adormecido diante deste reflexo horrendo do que não devíamos ser, mas que o espelho da incompreensão felizmente não esconde? - Sempre andaremos por aqui enquanto pudermos inquietos, perturbados e perturbando quem não quer ver e pensar.
E sobra por fim uma caridade insultuosa, aquela dos restos que faz pena mandar para o lixo, quando ainda serve para enfiar na barriga do faminto e descarregar a adormecida consciência com poucas ou muitas pílulas religiosas. Coitadinhos de nós sociedade, que ao invés de produzir a riqueza da dignidade para todos, insensivelmente com naturalidade produz a miséria da exclusão pela indiferença.

Tanto pior para a realidade

Para ilustrar o que estamos a viver quanto aos arranjos partidários que assistimos... 

Conta-se que Hegel, cuja filosofia pretendia constituir uma interpretação total e totalizante da realidade, terá sido um belo dia confrontado com um estudante que lhe fez esta simples pergunta: “E se a realidade não for assim?” Hegel, saindo do “Olimpo” da sua complexidade filosófica, terá respondido: “Então, tanto pior para a realidade!”