Convite a quem nos visita

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A ganância mata

1. A ganância está a conduzir à morte a humanidade e a destruir irremediavelmente a «nossa casa comum», o planeta Terra. O único planeta conhecido que permite o sustento da vida. Mesmo assim, sendo o único planeta que permite a vida para já, a humanidade pouco e em nada arrepia caminho no domínio da ganância e, por isso, continua sem que trave a exploração desenfreada perante os bens da natureza e pior ainda alimenta insaciavelmente a ideia de que para alguns dominarem tudo, têm que subjugar meio mundo.

2. Tanto assim é que alguns elementos tão comuns, mas essenciais para a humanidade, por exemplo, o desporto, a política, a cultura e a religião, que deviam educar a humanidade na fraternidade e na amizade, converteram-se em formas repugnantes de ganância de alguns mais fortes, que acham terem o direito de ter mais que os outros e que podem mandar como muito bem entendem quem está mais abaixo.

3. Tudo isto resulta porque, embora assumindo-se a ideia de que se considera a humanidade toda igual, mas na prática não passa de pura ilusão utópica e moralismo hipócrita, sempre lembrado por alguns para que façam valer as diferenças, o domínio de uns sobre os outros, isto é, uns serem supostamente melhores do que outros. Então, temos a corrupção disseminada, como filha dileta da ganância. Não é que a corrupção seja a fonte da ganância, mas a consequência desta, que origina tantos males para a sociedade em geral.
A raiz dos problemas que temos, especialmente, a desigualdade e a injustiça, é a ganância. Ela não é combatida e pouco ou nada se fala, é muito normal falar-se da corrupção, que é sempre a consequência e nunca a raiz dos problemas, mas nunca é habitual falar-se da ganância como fonte das misérias de uns contra os outros.
Tanta desgraça em nome da ganância, que derivaram de guerras e sistemas fascistas montados sob o alicerce da ganância. Os preços para o nosso planeta são elevadíssimos, quer materialmente e quer humanamente. Não há nada mais terrível para hipotecar o futuro de todos do que a ganância.

4. A ganância faz parte do quotidiano. É uma realidade subjetiva que acompanha os povos, os estados, as famílias e cada pessoa por si mesma. Daí todo o sofrimento que presenciamos numa grande parte das pessoas, porque esse fantasma tormentoso semeia o medo e impede a vontade de viver. A ganância mata, porque em muitas situações é um crime, que devia ser julgado pelas leis dos tribunais. Os seus autores quando a tivessem levado a extremos criminosos deviam ser julgados em conformidade.
A principal razão para a desigualdade do mundo radica na ganância, porque faz de alguns uns privilegiados e outros tantos (a maioria) as vítimas necessárias para que o «bem bom» desses tais possa ser uma realidade. Enquanto o mundo se fizer com privilegiados, legitimados pelo moralismo pacóvio que nos domina, nada de bom virá para o nosso planeta e a humanidade continuará irremediavelmente envolta neste ciclo vicioso de dominadores e dominados sem fim à vista. 

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A justiça de Deus é sempre justa e compassiva

Domingo XVI Tempo Comum, 23 julho de 2017
O livro da sabedoria, escrito em Alexandria na 1.ª metade do séc. I (a.C.), é de onde foi tirada 1.ª leitura deste domingo, é a parte final do livro. Nesta passagem descobrimos que Deus, sendo todo-poderoso, podia manifestar-Se com poder, castigar e sanear todos os malvados que não o acolhessem e amassem.
Mas, Deus não se entrega como os pequenos tiranos a manifestações de fúria. Mas, descobre-se um Deus «justo» misericordioso e compassivo. No entanto, o autor afirma que Deus condena todo o mal, mas não o faz com tirania, mas com toda a indulgência de modo que todos se possam arrepender. Assim, devemos nós os crentes ser tolerantes e sempre esperar pacientemente a conversão e a mudança dos outros. Esta esperança deve fazer parte das nossas vidas para que os males dos outros não nos vençam e nos conduzam para a violência ou à inquietação incontrolável perante as limitações que a vida dos outros muitas vezes apresenta, que tanto prejudicam a nossa vida. Devemos seguir o exemplo de Deus e isso nos salvará e nos fará felizes.
Depois dos gemidos que passamos nesta vida material, na expectativa do bem maior que vamos depois alcançar, São Paulo, aponta os gemidos do Espírito para que o destino do cristão à vida nova e à glória são sejam frustrados perante as misérias e limitações da vida deste mundo. O Espírito estabelece uma feliz comunhão entre a aspiração do cristão e a vontade de Deus. Na nossa intimidade, pela oração, descobrimos a acção do Espírito, que nos revela Deus como Pai, para depois sentirmos o abraço do Seu amor como Mãe.
O Evangelho propõe mais três parábolas sobre o Reino, seguidas de uma explicação sobre o trigo e o joio. As parábolas são transmitidas às multidões e as explicações em casa aos discípulos. Muito curiosa esta particularidade do Evangelho. A parábola do trigo e do joio põe em confronto duas atitudes, a do dono do campo (paciência) e a dos servos (impaciência). Só a atitude de Deus – o «dono do campo» – é salvadora. Eis um convite de Jesus aos discípulos para conterem a sua impaciência e dominarem o seu «puritanismo» até ao tempo da «ceifa» (imagem do juízo definitivo de Deus).
Neste mundo, o Reino de Deus deve crescer lado a lado com o mal. Agora é o tempo da espera, não o do juízo nem cabe a nós fazermos a colheita. Só Deus, o «dono» do Reino pode julgar com justiça quem a Ele pertence ou não, por conseguinte, a nós, cabe-nos ter a certeza que a justiça de Deus nunca falha e seguramente será verdadeiramente justa. Ele é um justo e sábio juiz. 

Deus e eu

Deus e eu
“Deus e eu”, esta semana em exclusivo no Banquete com um amigo de longa data, o Donato Macedo. Obrigado pela partilha...
Deus, sempre me foi revelado pela família desde muito cedo. Quando comecei a ter consciência dalguma “entidade divina”, foi logo nas idas à missa, naquele ritual em que eu, filho único e sem grandes convívios com outras crianças, me deleitava. Nomeadamente naquelas missas dominicais cantadas, com conjunto musical (guitarra, bateria, baixo e órgão), na capela da então denominada Escola Salesiana de Artes e Ofícios na Rochinha. Estávamos na década de 70, tempo de memórias difusas, ofuscadas pela névoa do tempo. Passei sempre por colégios de inspiração católica. Primeiro na Apresentação de Maria, cuja lembrança está mais apagada. Depois, nove anos nos “Salesianos” onde conheci grandes “Mestres”. Seguidamente mais três anos na APEL, onde conheci o José Luís Rodrigues – dinamizador deste blogue – nas aulas de latim, do saudoso Pe. Ângelo Caminati. Uma grande “escola” da minha Fé foi-me concedida pelas actividades da “pastoral juvenil” desenvolvida na década de 80, na Paróquia de Fátima, onde após o meu percurso catequético, integrei o grupo de jovens em que, para além das amizades daí desenvolvidas, tomei consciência dalguns dos valores práticos, onde as nossas acções poderão se repercutir nos nossos semelhantes. À medida que crescia, atentei mais no conceito ético, do que a narrativa evangélica revelada pelo Criador. A exegese sempre se me afigurou tendenciosa, parcial. A minha ideia de “Deus”, nem é necessariamente antropomórfica, mas sim uma ideia de “BEM”, duma entidade imaterial que nos proporciona ferramentas, opções, para que possamos ascender a um desígnio de “FELICIDADE”. Muito raramente vou à Missa, mas quando vou, converso com “Ele”, à minha maneira, tal como O questiono em qualquer sítio, se me der nas ganas. Há imensos desafios na Vida em que se cobra de “Deus” o sofrimento, a dor e os percalços. Praguejei “Deus” quando ele me tirou de repente, há tão pouco tempo, o meu Pai. Raramente Lhe agradeço o que de BOM também me acontece, como o simples acordar ao amanhecer, e ter o essencial disponível e assegurado, o que não acontece a tantos milhões de seres humanos neste Mundo cada vez mais assimétrico e desigual. “Deus e Eu” estamos assim, talvez um pouco desquitados, mas tal como acontece nas verdadeiras amizades, não é preciso falar todos os dias, nem todas as semanas, ou meses, para sabermos que habitamos no coração um do outro.
Donato Macedo

segunda-feira, 17 de julho de 2017

A barca de Pedro está agitada mais uma vez

1. As palavras de Bento XVI, lidas pelo seu fiel secretário o arcebispo Georg Gänswein, na catedral de Colónia, na missa do funeral do cardeal Joachim Meisner, abalaram a secular colunata de Bernini do Vaticano e entusiasmaram as ostes que andam meias entretidas a «combater» as intenções de reformas que o Papa Francisco alimenta e que aqui ou ali sempre vai dizendo que precisam de serem feitas.

2. As palavras em causa são estas: «O Senhor não abandona a sua Igreja mesmo quando o navio está tão inundado que quase se afunda», escreveu o Papa emérito Bento XVI. Estas palavras estão inseridas no parágrafo onde faz um rasgado elogio ao cardeal defunto. Diz assim: «Aquilo que mais me impressionou foi que, no período final da sua vida, aprendeu a deixar-se estar e a viver cada vez mais na crença de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo quando o navio está tão inundado que quase se afunda».

3. Acho que não se deve dar muita importância a estas palavras e devem ser enquadradas no contexto de um elogio fúnebre, que em qualquer circunstância, é sempre um pau de dois bicos. Mais ainda este de Bento XVI. Porque, pode servir para atirar contra o Papa Francisco, mas também pode servir para atirar contra o Papa Bento XVI, porque ele foi o primeiro a abandonar «o navio que se afunda» há quatro anos. Se pretende criticar o Papa Francisco, pelos desejos que manifesta em fazer reformas, então não são bem vindas estas palavras e mais uma vez saltam de contentes todos os oportunistas que não aceitam as ações do Papa Francisco.

4. No entanto, estas palavras são bem vindas, se no pensamento do Papa emérito estavam os escândalos sexuais do cardeal George Pell, terceira figura mais importante no Vaticano, com a pasta da Economia, que foi acusado de abusos sexuais na Austrália. Uma semana depois, a polícia italiana interrompe num apartamento da Congregação da Doutrina da Fé uma orgia homossexual. Era o apartamento, onde também foram encontradas drogas, pertencentes ao secretário pessoal do cardeal Francesco Coccopalmerio, que é um dos principais conselheiros do Papa Francisco. Deve ser claramente esta tempestade que está na cabeça do Papa emérito quando escrevia o elogio fúnebre e que ele considera que está meter água dentro do «navio que quase se afunda».

5. A relação entre o Papa emérito Bento XVI e o Papa Francisco tem sido marcada por respeito público e fraterna cooperação. Por isso, acredito que estas palavras não têm qualquer intenção de beliscar o caminho do Papa Francisco nem muito menos serem um incentivo para os seus detratores.

sexta-feira, 14 de julho de 2017

As ondas apressam-se sobre mim

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
um braço redondo quase geometricamente elaborado
entre calhaus sublimes sem bicos redondos e iluminados
pelas mãos que o ventre da terra germinou sobre este pensamento
que as letras desvelam como poema em cada palavra que nasceu
no mistério da vida e da luz.

nesse momento que me enleva e me leva sobre a firmeza
vejo uma mãe feita de água pontiaguda de alegria
no mar imenso que se faz presente nesta ausência do olhar
para o além da barra que chora disponível os sonhos que faltam
porque convencionaram os paquetes não virem no verão.

depois eu parado e pequeno sobre o pontão de cimento
olho para o grande infinito além daquela linha imaginária
da visão que vem de longe, nítida, promissora de cada tarde
que sonha com o despertar de outra manhã na trama do amor.

deve ter sido Deus que nos fez da terra e da água
porque olho dentro de mim com grande independência da alma
e digo ó mar largo com fundos negros e abismos fundos
sou eu só que neste mundo lembro os teus segredos
como puro cristal nobre retratado oblíquo e receoso?

uma após outra cada onda enrola a pedra toda
e chia a espuma vagarosa no regresso sem fim pelo tempo
mas uma vaga parou há muito tempo na porta do meu coração
mesmo que por esse encontro vagamente desvende a sorrir quase nada.

por isso bastou sim o sorriso reconfortante para sempre
era a alegria imaginária da tua face que dentro de mim com firmeza
por chamamento no interior da alma sempre me convoca
como um assombro a voltar a crer no poder divino da natureza.
JLR 

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Uma cama pronta sobre a erva verde

1. Está pronta a cama sobre o atapetado verdejante no meio do campo, um quarto de dormir do tamanho do mundo. Há fado em fundo que ecoa de um restaurante, que liberta sons de talheres, copos, pratos, odores, gargalhadas, palmas, palavras desconexas e muita indiferença. O dono desta cama vagueia apetrechado com tantos tempos, todos os tempos que a vida permite dar, nunca soube nem muito menos sabe agora qual o tempo a que pertence. É dono da praça toda e do teto que é feito de azul nos dias quentes do Verão, escuro nas noites de inverno e sombrio em todos os tempos quando vagueia, perdido, só… Ah, mas há verde, para alguns dizerem, que o verde é a esperança.  

2. Aquele campo ou praça tem tantos caminhos, atalhos que a maioria considera ser ornamento. Todos nós vagueamos por eles, também indiferentes a uma cama que serenamente espera o coração que não para, mas que pulsa forte mesmo que se veja apenas trapos e farrapos sobre aquele corpo. Ele dói tanto como dói qualquer coração se lhe cravam pontiagudo o silêncio e o encolher de ombros cheio de penas inconsequentes. Tão aprumada e certinha a cama. Quantos de nós não desejariam saber fazer assim uma cama sobre a esperança!

3. Aquele corpo anónimo no meio de tanto povo, igual a todos, à noite deposita ali mesmo naquele descanso simples os seus sonhos despojados e a esperança de algo que nunca mais chega. Muitas vezes chora se olha em volta e vê tanto chão verde para ser pisado com os pés e com o corpo - se falamos do seu, quando se reclina para o merecido descanso da alma. Contudo, mais que certo, é que soluça o frio nos invernos rigorosos. E Transpira as noites quentes e abafadas do calor dos verões. Aquele travesseiro fica quieto, recebe e ensopa cada lágrima que se desaguasse como aluvião, ao fim de todos os tempos seria suficiente para inundar a cidade. Por fim, deve chegar o corpo todo, o olhar inquieto e melancólico, a pergunta, «porque eu e não outro qualquer?» É o aconchego possível, mas merecido, que uma injustiça incerta reservou… Mas somos todos ao relento, porque estamos abandonados de nós próprios. O corpo todo horizontalizado, com sonhos ou sem eles, dorme…

A Palavra de Deus é o alimento da alma

Domingo XV Tempo Comum
A Liturgia deste Domingo, apresenta-nos uma mensagem sobre a Palavra de Deus. Somos convidados a pensar sobre a Palavra de Deus. Que importância lhe damos? Que estudo fazemos dela e quais as formas que escolhemos para a estudar? A Palavra de Deus, é o centro da minha religiosidade? Procuro esclarecer a fé na Palavra que me é anunciada? Ponho em prática a Palavra de Deus, como se fosse uma luz que inspira todo o meu viver? - Estas são apenas algumas das questões que podemos colocar diante da mensagem Bíblica sobre a Palavra que as leituras deste Domingo nos apresentam. 
São abundantes as metáforas sobre a Palavra de Deus, lembremos Jeremias que compara a Palavra ao fogo e ao martelo. O autor de Heb recorre à ideia da «espada de dois gumes». O profeta Isaías inspira-se no mundo rural, um camponês que se inquieta perante a terra árida, nada mais deseja e ama do que a chuva, início e condição para o ciclo da vida. À Palavra de Deus, o profeta dá-lhe tal importância que nos faz pensar Naquele que é a Palavra plena, definitiva, criadora de Deus, Jesus Cristo. 
A nossa vida está cheia de exemplos de práticas de instrumentalização da Palavra de Deus. São muitas as pessoas, ditas de muito crentes, que não seguem a Palavra de Deus, mas antes a palavra dos homens. São muitos os que não se guiam pela luz da Palavra Divina, mas pela doçura das palavras de alguns, os idolatrados pelos interesses deste mundo.
São Paulo ensina que a Palavra de Deus não se deixa encadear, mas pela força do Espírito Santo, corre veloz como uma gazela e é penetrante como uma espada de dois gumes. Por isso, não deixemos que nenhuma lógica deste mundo, nem nenhuma divisão da vida, nem nenhum interesse material, nem nenhuma palavra, por mais doce que seja, nos faça desviar o coração da verdade que a Palavra de Deus nos transmite.
Quando nos guiamos pela Palavra de Deus, nada nos desvia do caminho que Jesus traçou para nós. Aconteça o que acontecer, estamos seguros na rocha firme que é a Palavra Divina inspirada por Deus. A Palavra de Deus, deve ser bem interpretada, e melhor do que a interpretar é preciso reza-La, porque a Palavra de Deus se serve para nos guiar para a vida plena, também quando mal digerida serve para cometer as piores atrocidades e violências. A Palavra recria-nos sempre para o amor, que depois permite que as nossas atitudes estejam em consonância com todo o bem e de acordo com a vontade de Deus. Nisto consiste a nossa missão.