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quinta-feira, 23 de março de 2017

Copos e mulheres

1. A onda de indignação no sul da Europa foi grande. Não podia ser de outra forma. Se fosse um qualquer de nós a dizê-lo até se podia considerar como bem visto e acertado. Porém, veio de um sr. com alguma relevância e importância nos destinos da Europa. O seu nome é Jeroen Dijsselbloem, o ministro das finanças holandês e presidente do Eurogrupo (a entidade que reúne os ministros das finanças da zona euro). Disse o homem: "durante a crise do euro, os países do Norte mostraram solidariedade com os países afectados pela crise. Como social-democrata, atribuo uma importância extraordinária à solidariedade. Mas também deve haver obrigações, não se pode gastar todo o dinheiro em copos e mulheres e depois pedir ajuda". Gasóleo para a fogueira, sexista e grau elevado de soberba. 

2. A frase aplica-se que nem uma luva a tanta gente que andou e anda por aí a gastar o seu e o dos outros em meandros etílicos e com "mulheres de má vida". Porém, não deve ser aplicada aos povos do sul, do norte, do leste e do oeste. Cada povo tem gente de toda a espécie. Gente do melhor que pode haver: trabalhadora, generosa, honesta, respeitadora e cumpridora dos seus deveres... Mas, também tem gente do pior que pode haver: assassinos, adúlteros, desonestos, fundamentalistas, terroristas, violadores das regras e da sã conduta nas palavras e nas atitudes. Um povo faz-se com todos e com tudo. E nenhum outro povo pode ou deve considerar-se superior em nada. As grandes barbaridades da humanidade começam assim. As Cruzadas, a Inquisição,  o Holocausto, os Gulag, o Estado Islâmico e tantos outros regimes em tantos lugares do mundo onde a prevalência do terror tem como princípio legitimador essa vanglória absurda de que nós somos os maiores e os melhores os outros carne para abater e queimar. 

3. As declarações do sr. Joroen são perigosas, sexistas e xenófobas como tantos dirigentes, especialmente, os do sul da Europa afirmaram. Mas alguns entre nós gostaram tanto do comentário que até andam a dizer que sim senhor o homem tem razão e até vão buscar exemplos para provar que assim foi e é. Mas, esquecem que nada daquilo que a Europa nos tem dado tem sido de não beijada. Tudo tem sido pago com suor e lágrimas e não com "copos e mulheres". Não fomos nós os do sul que tivemos e ainda estamos sufocados com uma austeridade desumana que fechou empresas lançando no desemprego, na emigração e na pobreza tantas famílias? - Sim, esta pergunta é sobre os últimos anos de vida dos povos que vivem no sul da Europa. E foram estes mesmodirigentes que apontaram tais medidas salvadoras em nome dos números dos deficits, agências de mercados financeiros e profundamente aliados às falcatruas dos bancos que foram aliciando os povos com a engenharia financeira do lucro fácil...

4. Neste sentido, concordo com a ideia de que este sr. não reúne condições para continuar no cargo. O ambiente de terrorismo e de violência em que andam mergulhadas as sociedades europeias, despensa dirigentes incendiários. É preciso serenidade e apelos que tenham em vista a compreensão e solidariedade entre os povos que levam à união dos povos. Requer-se uma solidariedade desinteressada que promova a dignidade dos povos e não uma caridadizinha qualquer que os inferioriza e que no causo até os humilha.

terça-feira, 21 de março de 2017

Deus e eu

Deus e eu
Isabel Cardoso, com texto exclusivo para o leitores do Banquete da Palavra. Obrigado Isabel, por esta viagem à sua interioridade. Valeu...
Antes de tudo, Tu estavas comigo. Sabia-Te comigo. Eramos um só. A Tua ternura guiava a menina que eu era. Não havia ruído, só o Teu silêncio. Não havia ruído, só a alegria e a Esperança. Quando os ruídos aumentaram, a Tua voz foi ficando distante, pelo menos, parecia-me que ecoava, cada vez, mais longe. Os ruídos fazem parte do crescer e no meio das coisas inúteis a que atribuímos tanta importância, esqueci-me, muitas vezes, de Te ouvir. Falávamos mas andava tão entretida a usar de soberba com a Vida que as nossas conversas caíam no esquecimento. Mas Tu ficaste sempre lá. Fazias-Te presença no riso dos meninos, na imensidão do céu, na profundidade do mar, nas palavras dos sábios e dos inocentes, no grito do próximo, à mesa com os aflitos. A Tua voz nunca se impõe e houve momentos em que escolhi não ouvi-La ainda que Te soubesse lá. Reconhecia-Te no sopro do vento, na música e na poesia, na lágrima que se partilha, na mão que se estende, no hálito do recém-nascido, nos sonhos que se comungam, no olhar dos que estão preparados para partir. Por tudo isso, queria ser participante na construção do Teu Reino e buscar a Tua Justiça mas fui mais a filha pródiga do que a comungante da Tua promessa. Agradecia-Te as dádivas distraidamente. Perdoa-me, afinal, não sabia verdadeiramente que conheces todos os caminhos e todas as necessidades e que a todos ofereces, sem condições, o Teu Amor. Cobardemente cheguei a zangar-me Contigo. Quando a amargura e a tristeza me visitaram, a Tua presença fez-se fraternidade. A Tua misericórdia trouxe-me de regresso a casa. Tu estás sempre aqui. Já não temo tanto as fraquezas e as falhas, sei que nos amas nas imperfeições. Tento abafar o ruído e ouvir-Te. Tento. Tento pela Fé, na Esperança, aceitando o Teu Amor. Tento.
Isabel Cardoso

A camarada Zita Seabra

Não fui eu que escrevi a frase seguinte, mas como concordo totalmente com ela aqui vai: "A camarada Zita Seabra aparece num vídeo da Igreja Católica celebrando o 13 de Maio, estabelecendo a relação entre o centenário das aparições e o da revolução russa, para declarar a vitória de Fátima sobre Lenine. Depois de ver um modelo de virtudes proletárias, a mais dura dos comunistas no tempo de Cunhal, convertida numa beata devota da Nossa Senhora de Fátima, sou capaz de acreditar que um dia destes Maria Cavaco Silva ainda se vai inscrever na JCP, fazendo o percurso inverso ao da camarada Zita".
Mas, acrescento o seguinte, que tal sugerir ao alto dos céus, que façam acontecer um "milagre" assim tão piedoso como o da camarada Zita, que veio da linha mais dura do PCP, suponho que ferrenha fiel do ateísmo, salta para o colo do PSD e agora já está como defensora piedosa de Nossa Senhora de Fátima e do milagre da conversão da Rússia.  Que tal, face a este exemplo tão luminoso, rezarmos todos para que a mesma entidade que trouxe a luz à Russia, que a camarada Zita agora admira tanto como admirava antes de se converter, ao tempo de Lenine, converta todos os hereges que ainda fazem peso sobre a terra, especialmente, aqueles camaradas que ainda não fizeram o mesmo percurso de piedade como fez a camarada Zita e que estão em ninhos de perdição, por ex. o seu antigo partido PCP, onde uma grande parte se confessa pouco ou nada adeptos de religiões e religiosidades tipo as da Cova da Iria. Eu ficava tão comovido como me comove, não a tão propalada conversão da Rússia, mas a conversão da camarada Zita e o seu esquisito percurso político, mas também o seu percurso de vida iluminado pela fé. Aprontem-se camaradas, Deus não dorme...
Podem ver o vídeo AQUI

segunda-feira, 20 de março de 2017

Caminhando pela vida de Conceição Pereira

1. Andam para aí a dizer que hoje é o dia da felicidade. Como se pudéssemos intervalar a felicidade e remetê-la para celebrá-la apenas num dia só do ano. A felicidade é para sempre, com altos e baixos, é certo, mas existe sempre e até na solidão, em algum sofrimento pode transparecer a felicidade. Os lugares da oração quotidiana e da provável infelicidade, segundo crê a lógica deste mundo, têm sido desconcertantemente as maiores ofertas de felicidade. Os dias da felicidade só podem ser todos os dias.
2. Tenho em mãos um livro magnífico, «Caminhando pela vida», de Maria Conceição Pereira. Um enorme surpresa que tem sido uma felicidade enorme estar a ler. Mais ainda, é uma felicidade, se  vos testemunhar que chegou às minhas mãos pela mão generosa da autora, com uma simpática e bonita dedicatória. Gostaria de alinhavar aqui algumas ideias em jeito de comentário para que muitos mais madeirenses desfrutem do prazer desta leitura. Para facilitar a minha vida e dar-vos a possibilidade de percorrerem comigo o livro, estruturo o que pretendo dizer desta forma: a) a infância da autora e o apego à sua terra, o Seixal; b) a descoberta da cidade (Funchal) - e a vida que a cidade implica; c) A emigração; d) a intervenção política; e) estamos, seguramente, perante uma mulher de causas...
3. Caminhando pela vida, Conceição Pereira, conduz-nos pela mão aos cantos do Seixal, calcorreando veredas, as casas, os poios, as pessoas, a igreja, a catequese, a escola e a vida toda da sua freguesia onde ela viu a luz do dia. O cenário deste quadro bucólico está bem delimitado pelo mar e pela imponente montanha que a norte do Seixal se impõe. Dessa infância e juventude retém tudo o que o Seixal oferecia, os usos e costumes, a ruralidade sem que nada venha proibir o inconformismo e a vontade de progredir, vindo futuramente a construir o futuro da sua vida que as páginas do livro nos revelará.
4. A descoberta da cidade do Funchal, apresenta-se como  o segundo passo na história da sua vida. Abrem-se novas possibilidades. Embora as limitações do «Estado Novo» fossem tão cerceadoras, particularmente, para as mulheres,  na cidade pode aprender mais e permitiu-lhe a experiência do emprego. Mesmo face ao ambiente repressivo e à marginalização geral das mulheres da vida cívica, dá os primeiros passos na política e na mundo sindical, na acção Católica, Oposição Democrática e no Sindicato de Empregadores de Escritório e Caixeiros. Esta acção é já bem reveladora da mulher de causas em favor dos outros, especialmente, naquilo que se vai revelar depois, na lutadora intransigente pelos direitos e dignidade das mulheres.
5. Nos anos 60 e 70, a perseguição da ditadura, a pobreza generalizada, determinaram que uma porção enorme de portugueses emigrassem. Conceição Pereira foi para França, Paris. Aqui ainda mais sentiu a necessidade de aprender, porque confrontada com as condições miseráveis das mulheres emigrantes, especialmente, as empregadas domésticas, viu-se tomada pela sua veia de lutadora inconformada com a injustiça.  Movida pelo entusiasmo da Revolução do 25 de Abril, regressou à Ilha da Madeira, onde vai continuar os seus estudos para que possa vir depois a assumir o ensino como professora. Mesmo assim, nunca deixou de estar presente no mundo da política partidária e sindical, a causa da luta pelos direitos dos trabalhadores e a dignidade das mulheres foram o seu horizonte, pois nunca deixou de ter como elementos inspiradores essa causa na sua acção e nas suas opções, quer pessoais quer partidárias.
6. No prefácio o professor Nelson Veríssimo, traça o essencial da sua intervenção política: «sempre encontramos Conceição Pereira em manifestações, comícios, debates e acções cívicas, a distribuir propaganda e a colaborar na imprensa». Sempre contra as diatribes do Jardinismo, contra ao regime da colonia, pelas mulheres e trabalhadores, no Sindicato dos Professores,  foi militante da UDP e hoje do Bloco de Esquerda, foi deputada à Assembleia Regional da Madeira. Sempre sem parar de lutar, é uma mulher empenhada nas lutas pelo bem comum, a igualdade, a inclusão e por todos os direitos que sempre são coarctados pelos poderosos às classes mais frágeis, especialmente, os trabalhadores e as mulheres. Mais claro é impossível: «Cada um coloca-se do lado que quer, mas um Bispo pôr-se ao lado daqueles facínoras era coisa que não cabia na minha cabeça» (p. 96). Refere-se ao Bispo Saraiva que puxou as orelhas aos movimentos da Acção Católica, por causa do posicionamento político que assumiram nas eleições de 1969 para a Assembleia Nacional, aos tempos da Primavera Marcelista.
7. O livro é apenas uma parte da vida intensa e grande de uma figura que nos revela uma vontade sempre maior que a sua terra natal, mais vasta que o segundo lugar onde chegou, a cidade do Funchal. E até a cidade de Paris, parece não caber a inquietação de Conceição Pereira. Feliz a hora em que regressa para a ilha, para que entre nós ponha em acção toda a sua vontade e o seu saber em prol do bem comum e da justiça. Conceição Pereira, certamente, ficará na história do povo da Madeira, como uma  mulher guerreira e como um exemplo a nunca ser descorado por todos/todas as pessoas que implementem a luta pelos direitos dos mais fracos, particularmente, quando confrontados com a violência que consume o mundo feminino. No âmbito do clero, faz uma pequena referência à obra incontornável do Padre Marques na Paróquia de Fátima e na Lombada da Ponta de Sol. Um prazer enorme estar a passar algum tempo na leitura deste livro.

sábado, 18 de março de 2017

Diálogo improvável sobre a água viva

Comentário à missa do próximo domingo III da Quaresma...   
Neste domingo, somos confrontados com um encontro, entre uma mulher e um homem. Jesus e a Samaritana. É o resultado de duas pessoas que procuram o mais delicado e profundo da existência. Jesus encontra fé onde ninguém espera que tal aconteça, no coração de uma Samaritana (uma estrangeira repudiada pela religião e cultura judaicas). Lembro que os samaritanos eram considerados de «cachorros» pelos judeus ao tempo de Jesus.
A mulher, que no desenrolar do diálogo, descobre-se a si mesma, se sente livre, restaurada e encontra o Messias esperado há tantos séculos. Este encontro fura todas as regras. Jesus nunca poderia fazer diálogo fora de casa com uma mulher. Uma ousadia. Os samaritanos eram considerados impuros. Qualquer aproximação entre os povos desavindos seria considerada uma ousadia criminosa. Porém, o mais importante é que Jesus entra em diálogo com uma pessoa de quem não se espera nada de relevante e pede ajuda material, para logo depois conceder o mais importante para vida, alimento espiritual. Jesus argumenta que todo aquele que beber da água do poço de Jacob, voltará a ter sede, mas qualquer um que beber da água que Ele lhe der, nunca mais terá sede.
O caminho que a mulher samaritana percorre é o nosso caminho de cristãos em busca de Deus. Face à tentativa constante da samaritana que regressa ao passado, Jesus faz olhar para o futuro e tomar consciência de que ao mundo chegou uma novidade e que esta renova toda a vida. A experiência desta mulher revela que cada um pode ter a sua experiência pessoal com Jesus, basta acolher a água viva do amor que Jesus nos oferece.
Para que a nossa vida não se consuma na depressão dos dias e para que tenhamos horizontes largos que nos façam ir mais longe daquilo que nos rodeia apresento-vos a seguinte parábola: um homem sentia-se continuamente oprimido pelas dificuldades da vida. Foi lamentar-se com um mestre espiritual e disse-lhe: — Não posso mais! Esta vida é-me insuportável! O mestre pegou então numa mão-cheia de cinzas e deixou-as cair num copo de água límpida que tinha sobre a mesa, dizendo: — Estes são os teus sofrimentos. Toda a água ficou turva e suja. O mestre entornou-a. Em seguida, pegou numa outra mão-cheia de cinza, e mostrou-a ao homem. Depois, aproximou-se da janela e atirou-as ao mar. As cinzas dispersaram-se imediatamente e o mar continuou exactamente como era antes. O mestre perguntou-lhe: — Entendeste o significado do que eu fiz? Ele respondeu: — Não. O mestre explicou: — Todos os dias deves decidir ser um copo de água no mar.
Os nossos dias reservam-nos alegrias, tristezas, desafios e dificuldades de toda a ordem. A questão está em saber gerir as dificuldades, de modo a não nos deixarmos perturbar por elas. Deixemos que o tempo seja como o mar onde elas se vão diluindo. Chico Xavier soube dizer isso de forma interessante e completa: «A gente pode morar numa casa mais ou menos, numa rua mais ou menos, numa cidade mais ou menos, e até ter um governo mais ou menos.
A gente pode dormir numa cama mais ou menos, comer um feijão mais ou menos, ter um transporte mais ou menos, e até ser obrigado a acreditar mais ou menos no futuro.
A gente pode olhar em volta e sentir que tudo está mais ou menos... Tudo bem!
O que a gente não pode mesmo, nunca, de jeito nenhum... É amar mais ou menos, sonhar mais ou menos, ser amigo mais ou menos, namorar mais ou menos, ter fé mais ou menos, e acreditar mais ou menos. Senão a gente corre o risco de se tornar uma pessoa mais ou menos». 
A mensagem que Jesus dirige à Samaritana tem muito que ver com isto, a água da mulher, é água deste mundo, que mata a sede humana e física - importante também - mas a água viva que Jesus oferece preenche o sentido da vida e faz-nos voar até ao alto da plenitude da existência, a eternidade que Jesus nos oferece. Sejamos lúcidos, acolhendo esta realidade como sentido para a nossa vida enquanto estamos neste mundo para que sejamos sempre muito felizes e com isso ajudemos os outros a serem também felizes como nós.

sexta-feira, 17 de março de 2017

A mensagem

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém...
Os meus sentimentos agarraram a palavra 
que em silêncio foi conjugada por dentro
e como se eu fosse Deus recriei-a 
dando-lhe som e luz para que falasse

Ela é parte de um livro segurado pelas minhas mãos
que trazia todas as histórias do mundo
mais ainda o sentido 
de uma mensagem luminosa
que por momentos me fazia descansar o olhar
pela tarde no crepúsculo secular em cima da água

Nunca foi pretensiosa como tantas outras palavras
que reduzem a escombros as casas
por isso devemos ao seu autor 
letra a letra a sua reabilitação colocando-a devagar
no sentido original do som

Tantas vezes foge-me a palavra 
nos momentos da infelicidade
porém como caçador que remexe a mata toda
para levantar a lebre 
eu sou esse persistente homem que procura por ela
para a saborear inteira na mensagem 
JLR

quarta-feira, 15 de março de 2017

Quatro anos de Papa Francisco

1. Celebramos no dia 13 de março de 2017, 4 anos da eleição do Papa Francisco. Um pontificado excelente. Porém, melhor do que ninguém, o Papa Francisco, sabe que não é fácil enfrentar uma instituição cimentada em alicerces seculares.

2. Eles são uma plêiade de religiosos que vivem confortavelmente em comunidades ricas e luxuosas. Eles são o clero aburguesado que não estuda e que não sai da catequese mais corriqueira, devocionista e infantil. Eles são as mulheres poderem receber todos os Sacramentos, que são sete, menos o Sacramento da Ordem. Eles são o estigma contra os casais que falharam no casamento, o drama das mães solteiras, as famílias monoparentais, que são cada vez mais e os recasados ou unidos de facto em segunda relação ou mais.

3. Mas eles são também, os leigos que vivem num infantilismo confrangedor a sua fé e a base mais visível da pastoral está exclusivamente no devocionismo. Eles são preconceitos graves contra a homossexualidade e receio que em muitas franjas da Igreja Católica exista uma homofobia horrível, que exclui sob a batuta do desprezo doentio, embora albergue tantos clérigos com tendências homossexuais bem evidentes e tantos «pecados» (escândalos insuportáveis) relacionados com a pedofilia.

4. E ainda, eles são o facto de reinar uma insensibilidade enorme perante aquilo que se designa hoje «os pecados sociais»: a injustiça, a corrupção, a desigualdade, a pobreza, a ecologia, as migrações (refugiados) e todas as situações/desafios deste nosso tempo que deviam ser a principal preocupação de toda a Igreja para que se fizesse jus à magnífica expressão do Concílio Vaticano II quando fala dos «Sinais dos Tempos».

5. Por fim, eles são a nível político, aquilo abala sobremaneira as democracias, os desafios dos populismos que varrem o mundo todo, que levanta muros contra os estrangeiros e os deslocados da guerra, do terrorismo e do fundamentalismo religioso. A par de tudo isto impõe-se ferozmente a «economia que mata», com a austeridade para os mais frágeis, geradora de corrupção desenfreada e mentiras atrozes que prejudicam a vida de todos.

6. Por conseguinte, em termos religiosos, mais voltados para dentro das Igrejas Católicas, devemos dizer honestamente que a continuarmos assim, vai continuar a aumentar em todo o mundo a ideia de que aquilo que Roma prega não é praticado pela maioria dos fiéis, como está bem claro no caso da doutrina sobre a sexualidade, as questões sobre a vida em geral, a opção pela pobreza e a teologia do encontro, temas mais que badalados pelo Papa Francisco. Em todo o caso nada está perdido, se existir coragem e muitos seguirem os passos do Papa Francisco, que procura responder a todas as situações com a Palavra de Jesus e com a mais pura naturalidade faz como Jesus faria se estivesse em carne e osso no meio de nós neste século.