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sábado, 27 de maio de 2017

Momento fúnebre

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Naquele dia sem hora 
E sem guia misteriosamente
Um fogo enorme dentro da mão
Que os meninos já mortos
Denunciam a desolação 
Das mães que choram
Para sempre a inutilidade do parto.

Todos os frutos perdidos
Caíram podres no chão 
Da lama negra e repugnante
Como sinal da fétida injustiça
De muitos homens
Quando lhes falta o pão
Sobre a mesa posta dos inocentes.

É este o retrato horrendo
Que os dias contados 
Para sempre refletem
Se teimosamente os corações
Estiverem sempre mortos
Dentro de corpos vivos. 
JLR

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Uma foto dois rostos que dizem tudo sobre o estado do mundo hoje

O Papa está preocupado com a paz ou a falta dela neste mundo mergulhado na violência e na corrida ao armamento.

O Donald Trump está feliz e entusiasmado com o seu sucesso, acaba de vender este sorriso por uma encomenda da Arábia Saudita de 110.000 milhões de armas às empresas de armamento americanas. O sorriso Trumpista é o sorriso de um irresponsável que não sabe ler nada daquilo que se está a passar no mundo.

O rosto triste e pesaroso do Papa exprime a preocupação, é um alerta à humanidade: para onde iremos com loucos deste teor que alguém se lembrou de colocar a governar um país com a influência conhecida de todos sobre os destinos do mundo inteiro. 

Não nos vamos esquecer desta foto e a ela voltaremos seguramente.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

O sentido da vida e a Ascensão

Domingo da Ascensão (28 maio de 2017)
O que significa a Ascensão de Jesus? Ou, então, o que significa dizer que Jesus subiu aos céus? - Com toda a certeza que Jesus subiu aos céus. Porém, dizer que Jesus subiu aos céus é o mesmo que dizer: "ressuscitou", foi glorificado, entrou na glória de Deus.
Cristo subiu ao céu, o lugar do Pai e com Ele todos nós subimos à mais alta dignidade, tornamo-nos «coisa» divina: realidade divinizada, semelhante àquilo que Deus é, eternidade e plenitude. Santo Agostinho afirma-o de forma magnífica: «Considerai, com efeito, irmãos, o amor da nossa cabeça. Já está no céu e ainda trabalha sobre a terra, enquanto sobre a terra se afadiga a Igreja: aqui Cristo tem fome, tem sede, está nu, é forasteiro, doente, preso. Ele mesmo o disse: que sofria tudo aquilo que sobre a terra o seu Corpo padece. No fim dos tempos separará o seu corpo para a direita e os outros, pelos quais agora é oprimido, para a esquerda» (S. Agostinho, Sermão 137, 1-2).
No entanto, inquieta-nos saber que o corpo de Jesus foi colocado no sepulcro. Deus não precisava de nada do Seu Corpo material para tomar o Corpo de "Ressuscitado" que São Paulo chama de "corpo espiritual" (cf. 1Cor 15, 35-50). Numa palavra o mistério da Ascensão, por um lado, é o momento da partida de Jesus para Deus Mãe e Pai, mas, por outro, é também o momento em que toda a humanidade com Ele e Nele se vê elevada ao mais alto da dignidade. Isto é, em Jesus elevado ao céu toda a humanidade é tomada por Deus para se divinizar também. E nesta perspectiva fica confirmada a palavra de Santo Ireneu quando nos diz o seguinte: "em Jesus Cristo, tornamo-nos todos deuses".
Esta expressão parece forte esta expressão, mas revela-nos a densidade do amor de Deus encarnado na história concreta do mundo. A nossa condição material, perante o mistério da Ascensão de Jesus Cristo, assume o sentido total e último, o da glória de Deus. E, dessa forma, participamos efectivamente da divindade de Jesus e tomamos parte da mesa do banquete da plenitude da graça que Deus concede a todos os que se deixam envolver pelo seu amor.
Lucas, revela-nos que toda a realidade da terra: amores e a falta dele, sucessos e desgraças, aventuras e desventuras, justiças e injustiças, alegrias e tristezas, esperanças e desesperanças, saúde e doença, ausência de dor e sofrimento e até os factos mais absurdos, como uma morte cruel... Nada está fora do plano de Deus. Tudo em Jesus se envolve na "multimédia" do amor. A isso chamamos de salvação, que se encontra na elevação da vida que devemos manifestar nas palavras e nos gestos concretos.

Deus e eu

Deus e eu. 
Hoje com um reputado advogado e destacado historiador da Madeira. Mais um texto que nos aponta para Deus e que seriamente no convida à reflexão interiorizada. Silenciosa. Muito obrigado.
Das poucas vezes que me falam em religião e em Deus, costumo responder que se trata duma busca solitária, porque em rigor ninguém pode provar de forma palpável e científica que Deus existe, ou não existe.
De modo que em princípio, as verdadeiras pontes para encontrar a existência de Deus ou a sua negação, são a fé e o coração; e cada um aproxima-se ou não de Deus através da negação, da dúvida ou da certeza.
Porque não sou bafejado pelo dom da Fé, e apesar das dúvidas persistentes, a exame da colossal imensidade do Cosmos e das suas leis, os milhares de milhões de galáxias, estrelas, planetas e cometas, cuja observação nos esmaga e emociona, o enigma dos buracos negros, e as recentes conquistas da física quântica, dão-me a certeza de que tudo isso não resulta do nada e são sinais que existe um Deus criador, que entre muitos outros predicados representa como que uma grandiosa e agigantada fonte de energia.
Cavando um pouco mais e cotejando a herança espiritual da estirpe humana, considero-me um seguidor da ética cristã e admito que Deus estará na vida e que a vida está em Deus.
Mas, notando também que em horas de grande sofrimento e aflição, por vezes, nos sentimos ignorados, desamparados e abandonados pela Divindade; e que as leis da natureza parecem cruéis e impiedosas, pois predomina a lei do mais forte, os animais mais fracos alimentam os mais possantes, e os pobres, desvalidos, e desprotegidos são os que mais sofrem as vicissitudes e as nefastas consequências das catástrofes e das epidemias, tenho profundas dúvidas que haja um Deus, tal como nos apresenta o cristianismo - omnisciente, omnipotente, infinitamente justo, e generoso pai e mãe da Humanidade.
Será muito disso, mas duvido que tudo possa, pelo que muitas vezes me sinto próximo de certas conclusões do Panteísmo, que declara que nós e o que nos rodeia faz uma pequena parte de Deus ainda imperfeita, e a caminho da perfeição plena.
De modo que Deus é infinitamente bom, justo, e omnisciente porque a sua parte perfeita tudo sabe; mas não será completamente omnipotente porque ainda comporta uma pequena fração que não pode tudo, mas que com a vitória do espírito alcançará, então, a perfeição e a justiça absoluta.
Rui Nepomuceno

terça-feira, 23 de maio de 2017

O perdão e a estupidez

Cá te viste:
1. Sobre o perdão sabemos que é um valor dos mais nobres que existe. No Evangelho Jesus radicalizou-o de forma enigmática, para dizer que devemos perdoar sempre. Está dito assim: «Então Pedro aproximou-se de Jesus perguntou: "Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele me ofender? Até sete vezes? Jesus respondeu-lhe: "Eu digo-te: - não até sete, mas até setenta vezes sete» (Mt 18, 21-22). Porém, já antes tinha advertido noutra passagem: «Eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Acautelai-vos dos homens» (Mt 10 , 16-17). Este contrabalançar é interessante. E fica claro que perdoar sim, mas sem ter que ser estúpido por nenhuma vez.

2. O perdão como se vê quando exercido em qualquer circunstância é um gesto nobre e essencial para a paz nos corações e no mundo. Porém, porque sabemos da fragilidade humana e da sua tendência para a reincidência no mal, devemos, mesmo exercendo o perdão, agir com prudência ou cautela, para que não nos tome a estupidez nem muito menos ninguém se aproveite disso para fazer vingar os seus frequentes instintos malévolos. Não quero com isto dizer que nenhum crime ou mal merece perdão, pelo contrário, merece sim senhor, mas nada pode ser como dantes depois do mal ter sido feito. A prudência é boa conselheira.

3. A consciência entre o ter que perdoar e a estupidez anda numa fronteira muito ténue, alguns autores pensaram nisso, por exemplo, Friedrich Schiller: «contra a estupidez os próprios deuses lutam em vão». Há um dado curioso que devemos registar, passamos do tempo em que se gritava que não havia valores, para o tempo da confusão geral dos valores. Tanto pode ser perdoar, mas trair ao mesmo tempo, tanto pode ser gabar-se da sua dignidade, mas mergulhar na mais profunda alienação e manipulação e ainda, tanto pode ser que antes se tenha vivido o pior do mundo com esta ou aquela pessoa, mas à conta de uma dependência estúpida, mesmo correndo-se o risco de tudo se repetir novamente, encetam-se os mesmos caminhos e fazem-se as mesmas opções. Viva o tempo novo em que o mais inverosímil acontece e ninguém tem que se admirar com isso, porque cada um acha-se dono de si e quiçá do mundo inteiro. Estúpida ilusão.   

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A noite escura do clero

1. Há monumentos enormes que assumiram a sua «noite escura». Este assunto surgiu-me perante notícias cada vez mais frequentes sobre a depressão e consequente suicídio de sacerdotes, particularmente, na Igreja Católica do Brasil, embora também estejam a surgir alguns casos em outras partes do mundo. Na Itália chamam a este sinal dos tempos: «O sindroma do Bom Samaritano desiludido».

2. Só deixo de parte alguns exemplos bíblicos (São Paulo e São João Evangelista) e da história do Cristianismo (São Tomás e Santo Agostinho), por motivos de espaço. Por isso, vou rebuscar São João da Cruz, figura incontornável do séc. XVI, com a sua «Noite Escura da Alma». Um magnífico poema sobre a inquietação da alma que procura ansiosa o gozo de Deus. Deste tempo também há uma outro exemplo muito sugestivo, Santa Teresa de Ávila, que nos seus vários escritos, também expressou misticamente os seus encontros e desencontros com a divindade. No ressoar de presenças e ausências, na hora morte exclamou: «Chegou o momento de vermos, meu bem amado Senhor». A par desta enorme mulher, destaque-se também Santa Teresa do Menino Jesus (Lisieux), que também fez eco da presença e ausência de Deus com a sua «História de uma alma».

3. «A depressão do altar», como se tem vindo a chamar esta leva de depressões entre o clero, começa a preocupar a Igreja Católica e neste momento são mais a perguntas do que a respostas. Alguns psicólogos começam a estudar os casos de suicídio que já aconteceram. A título de exemplo, diz o psicólogo Enio Pinto, autor do livro «Os Padres em Psicoterapia» (editora Ideias e Letras): «A vida religiosa não dá superpoderes aos padres. Pelo contrário. Eles são tão falíveis quanto qualquer um de nós». No fundo, serve esta afirmação para dizer que a vida sacerdotal hoje esvaziou-se do clericalismo do passado que marcava a agenda e a vida das pessoas em geral, a formação do clero em termos académicos alterou-se profundamente, adaptando-se ao modus universitário em vigor na generalidade das universidades, mas a vida espiritual e comunitária dos futuros padres continua globalmente mais ou menos sem alteração, embora se fale muito em família, unidade e comunhão para cima e para baixo, mas na prática estes valores só funcionam quando interessam aos poderes.

4. Vivemos um tempo em que a generalidade das instituições converteram em domínios obscuros, que toleram as pessoas só porque são necessárias, basta repararmos no futebol, um poderio que tem pessoas porque são necessárias, mas a generalidades dos domínios humanos também estão assim. Precisam das pessoas até certa medida, se fosse possível dispensá-las seria para já.

5. No domínio do stress que conduz à depressão um outro psicólogo afirma: «O grau de exigência da Igreja é muito grande. Espera-se que o padre seja, no mínimo, modelo de virtude e santidade», afirma o psicólogo William Pereira, autor do livro «Sofrimento Psíquico dos Presbíteros» (editora Vozes). Por conseguinte, o padre hoje tornou-se o «funcionário» do «supermercado» religioso em que as sociedades actuais converteram as igrejas e, particularmente, as paróquias. Nesse âmbito, poucos reparam ou sequer lhes interessa que os padres estejam tristes, cansados ou doentes. Os padres têm que estar à disposição 24 horas por dia, sete dias por semana e todos os dias do ano, para que não lhes falte o serviço quando se dirijem ao «supermercado» religioso.

6. Por fim, falta perceber o mínimo, em nenhum campo da vida humana, mesmo até nas mais pretensamente saudáveis, pessoas, tristes, cansada e doentes, sem amor próprio e com a sua auto estima bem integrada, estarão aptas para cumprir a sua missão e realizar com alegria as tarefas que lhes compete fazer pelo bem de todos.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Navegar na proa do sentido

Para o nosso fim de semana. Sejam felizes sempre, nunca prejudicando ninguém.
Sentei-me a descansar na proa do barco
e reforcei a esperança do marujo.
Era distante a viagem e perigoso o mar
- neste mundo é só uma vida que temos
é preciso nunca desistir de encontrar
aquele lugar paradisíaco de Adão e Eva
que perdemos.

Destemido parti daquele porto materno
dizendo adeus aos grilhões
da felicidade tolhida e curta.
Olhei adiante na linha do horizonte
onde por hora vislumbro apenas o vazio
ou as ondas tumultuosas que penso 
todos os dias no baloiçar frenético da embarcação
e nas encruzilhadas de uma história 
que se faz entre a paciência e o perdão.

Porém rasgam-se as ondas sem desistência
porque em qualquer percurso e opção
o que importa não é alienar-se com a meta
mas começar no início 
ciente que haverá sempre tormenta.
JLR