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quinta-feira, 28 de março de 2013

O perigo do ramo e a floresta

Semana Santa - reacender a esperança
Sempre defendo e por isso me bato afincadamente pelo seguinte ensinamento «o ramo não faz a floresta». Porém, às vezes fico com a sensação que afinal o ramo algumas vezes pode fazer a floresta. Repare-se quando uma figura representativa, simbólica pode fazer com que facilmente os olhares e o entendimento sejam convergentes no que se vê, ouve e no que se entende de que naquele gesto, naquela palavra está representada uma realidade muito mais vasta, uma instituição, um conjunto de pessoas, um grupo, uma nação, uma comunidade…
Com a eleição do Papa Francisco, nos nossos corações as luzes da esperança reacenderam-se e brilham de forma cintilante como nunca. Porque vimos um homem como nós, que precisa de oração e reza como todos nós. Não é alguém idolatrado, mas limitado, pobre, simples e humilde como a grande porção de gente que faz este mundo.
Esta imagem pode fazer uma instituição e pode ser exemplo para milhares de pessoas que sonham e lutam por uma Igreja Católica mais despojada para servir toda a humanidade, especialmente, os pobres a todos níveis como defendeu de forma emblemática o Padre Tolentino Mendonça no Público do domingo 24 de Março de 2013: «Antes de tudo, no seu discurso [do Papa Francisco] os pobres são literalmente os pobres e depois são todas as pobrezas. Porque todos somos seres feridos, temos pobrezas, carências – a procura de Deus é também uma inquietação, uma sede, uma fome, a fome de sentido, de razões de viver. Tudo isso mostra a pobreza da condição humana com a qual a Igreja tem de dialogar». Neste âmbito, um homem só pode ajudar a fazer uma floresta ou ainda, ele que é uma gota pode fazer um oceano em alguns aspectos…
Porém, passados vários dias desta eleição e neste ambiente forte da Semana da Santa e da Páscoa, vamos vendo e ouvindo que alguns ainda não despertaram para a viragem que se está a dar neste tempo que nós vivemos, porque deslumbram-se com o passado, com outros exemplos e com outros ensinamento que não dizem do essencial nem muito menos ensinam para tomarmos com lucidez as coisas que acompanham a humanidade de hoje não como forças diabólicas, mas como desafios que bem utilizados podem realizar maravilhas. Não ver isto e não saber ler isto, revela uma grave miopia que nos pode conduzir à tragédia.
Face a esta conjuntura receio que uma voz ou algumas vozes deslumbradas com o vazio manchem a toda a realidade e arrastem um conjunto de pessoas para a fossa da péssima imagem ou para um quadro negro onde reina o desamparo, a solidão e o abandono.
Então, receio que não se aprenda nada com a atitude despojada, pobre e humilde do Papa Francisco.
Receio que a teimosia em manter o discurso da ilusão que se pode viver do e no espiritismo ignorante, alienante vai resolver alguma coisa dos nossos problemas das sociedades de hoje.
Receio que a linguagem não se altere, até parece piorar, quando a grande mudança que se espera hoje da nossa Igreja Católica é essa da linguagem. Reparemos no que diz o Padre Tolentino: «A primeira é uma mudança de comunicação. A Igreja Católica precisa de um projecto de comunicação, que não é da ordem do marketing, mas uma capacidade de tornar legível e percetível o que ela é e de apostar muito mais numa comunicação direta. Mesmo o cristão médio, com formação, tem dificuldade em ler uma encíclica do Papa. Há́ um défice de autocompreensão no interior da Igreja. Às vezes parece que a Igreja não precisa de se fazer entender, mas precisa. Este esforço é muito um esforço de tradução». Não perceber isto, resulta um ambiente péssimo na Igreja e não irá longe com as sua mensagem e actividades que não passarão de areia, abundância de areia que enche os olhos e consolar a alma.
Receio que a nova linguagem centrada na pobreza radique apenas e exclusivamente na pedincha para alimentar fundos pomposamente chamados de solidários, mas depois ninguém sabe para quem se destinam.
Receio que o miserabilismo tome conta da pregação sem se descer dos pedestais dialogando com todos, ricos e pobres, instruídos ou menos, velhos e novos, pequenos e graúdos, todos os homens e mulheres que procuram o amparo da Igreja como sinal, como caminho, como mãos que abraçam, como boca que denuncia a injustiça e defende os injustiçados, como ouvidos que ouve e partilha das inquietações dos homens e mulheres deste tempo concreto que é o nosso.
Receio que nós neste canto continuemos a desviar as atenções para o pecado do anacronismo, temas do passado, em reflexões, retiros, debates, conferências para não se mexer no que mexe o pulsar da sociedade hoje.
Receio que nos enganem com um disfarçado activismo para mostrar vigor e pujança, mas que no fim espremendo não deita nada, está oco.
Receio que tudo fique na mesma e com isto se confunda o ramo com a floresta, porque os olhos que nos vêm vão todos no mesmo sentido e concluam tristemente que afinal isto é tudo igual, todos pensam e agem pelo mesmo funil.
Livre-nos Deus destes receios e que a sabedoria impere para que não se confunda o ramo com a floresta para bem da nossa Igreja Católica e para bem do nosso mundo. 

1 comentário:

Unknown disse...

Boa noite Padre
Gosto de ler os seus textos e procurar perceber as suas preocupações e pensamentos.
O Papa Francisco pode ser apenas um ramo mas já mexe com toda a floresta - a Igreja.
O mundo deposita nele fé e esperança que o seu exemplo seja a continuação da catequese de Jesus para os pobres sedentos do pão da vida e do amor - o pão da palavra de Deus .

Que todos possamos orar com ele nesta Pascoa, pedindo a Jesus Ressuscitado que concretize estes sonhos do Papa Francisco